Resenha do filme: O mínimo para viver - Do papel para o mundo

16 de outubro de 2017

Resenha do filme: O mínimo para viver


"Envolvente, engraçado e humano", foi o que disse a revista americana Vanity Fair sobre o filme "O mínimo para viver". Vejo nessa uma das melhores críticas sobre a produção, lançada no dia 14 de julho pelo serviço de streaming Netflix, e estrelado pela Lily Collins. O longa aborda um assunto delicado, mas que deve ser tratado com o devido respeito - a anorexia. 

A trama conta a história de Ellen, uma jovem de 20 anos que após passar por inúmeros tratamentos por causa da doença, vai, por insistência de sua madrasta, para a "Limiar", uma espécie de clínica com cara de pousada para pessoas com distúrbios alimentares. O médico, Dr. William Beckham (Keanu Reeves), "pouco convencional", segundo a sinopse, não é nenhum hipster, mas um homem sereno, focado no trabalho e que prefere dar aos pacientes uma certa liberdade do que aprisioná-los em um ambiente contra a sua vontade.



O início do filme é bem interessante, pois adverte que por ter sido criado em parceria com pessoas que sofreram de distúrbios alimentares, "inclui representações realistas que podem ser perturbadoras", o que de fato ocorre. Em seguida vemos, em imagens desfocadas, duas mulheres extremamente magras caminhando por um corredor. Logo ouvimos: "Parece que toda vez que você liga a TV ou olha uma revista, é: "Nossa, que bolo delicioso." É como se fosse uma recompensa. Aí você vira a página e tem uma gorda triste no "antes", e tudo nela diz: "Eu me odeio". E a garota magra do "depois" diz: "Fiz dieta e agora sou feliz. Todo mundo me adora." Essa pequena apresentação pode ser preponderante para o telespectador definir que caminho tomar: prosseguir ou recuar? Se não fosse a curiosidade eu diria que essa é uma escolha. 

A cena seguinte, oficialmente a primeira, é um breve resumo da personagem principal, Ellen, em uma ótima atuação de Lily Collins, que emagreceu cerca de 10 quilos para o papel, além de já ter sofrido de distúrbios alimentares na adolescência. Entretanto, a grande inspiração para a história foi a própria roteirista, Marti Noxon, que resolveu elucidar sua luta contra a anorexia por meio de uma personagem sarcástica, negativa e com veia artística.


O longa, mesmo que cruel em algumas cenas - como na que Ellen se pesa na balança e se depara com sua magreza exacerbada - , é tratado com humor, o que traz leveza ao filme e o torna convidativo, porém, é preciso se ater ao grau de humor quando o mesmo cai em estereótipos. O fato da madrasta de Ellen, vivida por Carrie Preston, tentar justificar a doença como um deslize de sexualidade por causa da mãe da protagonista ter uma relação com outra mulher, ou a tentativa de mostrar a anorexia como uma obsessão pelo controle, pode passar uma imagem rasa para quem não tem muito conhecimento do assunto, que atinge de 0,5% a 1% das adolescentes e mulheres adultas no mundo, segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde). 

Se tratando de representatividade o filme peca bastante ao mostrar um lar para reabilitação com sete pacientes e apenas uma mulher negra, gorda e lésbica na composição do elenco. Neste mesmo lar, é onde as relações se constroem, como uma implicância inicial, que depois vira amizade e logo a premissa de um romance entre Ellen e Luke, também paciente da "Limiar", interpretado por Alex Sharp.


Contudo, acho que o maior erro do filme está em seu desfecho, por apresentar um romance como uma possível salvação para Ellen, como se a doença não fosse de fato muito mais complexa. Na cena, que se passa na cabeça da personagem, ela está andando aleatoriamente quando acaba dormindo e tem um sonho. Nele, se vê linda e ao lado de Luke, que lhe mostra o que pode ser o gatilho final. Do alto de uma árvore vê sua imagem esquelética no chão. Ela se assusta e quando acorda percebe que está viva. À primeira vista a passagem parece poética, mas romantizá-la é compactuar com uma indústria que fetichiza clichês. Contudo, entre erros e acertos, vale a pena assistir "O mínimo para viver", seja para apreciar, criticar ou refletir. 


Ficha técnica

Título: O mínimo para viver (To the bone)
Dirigido por: Marti Noxon
Estreia: 14 de julho de 2017 (mundial)
Duração: 107 minutos
Classificação: 14 anos
Gênero: Comédia, drama
País de origem: Estados Unidos
Elenco: Lily Collins, Keanu Reeves, Alex Sharp, Carrie Preston, Liana Liberato, Lily Taylor, Leslie Bibb, Kathryn Prescott, entre outros. 




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