Amar sem amor - Do papel para o mundo

2 de novembro de 2017

Amar sem amor

Todas as manhãs eu acordava ao seu lado. Nosso café era uma xícara de silêncio, nosso almoço era um prato de farpas trocadas, e no jantar eu saboreava minhas lágrimas, decorrentes de um dia de insultos que me corroíam. Eu era livre por direito, mas acabei me tornando prisioneira dentro da minha própria casa.

Conviver com alguém que não te valoriza, que simplesmente te ignora ou põe a sua autoestima no chão feito trapo não é saudável. Uma relação assim não pode ser denominada amor, mas sim abusiva. Quando quem mais deveria te amar faz questão de te lembrar dia após dia que você não é capaz, que não tem potencial ou não será amada por mais ninguém significa que algo de muito errado está acontecendo.

Eu me olhava no espelho e via o quanto os meus cabelos eram belos, vívidos; ele me olhava e dizia o quanto minha pele estava ressecada, cansada. Era sempre assim, não importava o que eu fazia para o impressionar, o que se sobressaía eram os meus defeitos. Meus olhos esfumados não eram nada perto das minhas linhas faciais, registro do tempo.

No meu íntimo ainda me perguntava se existia amor, se o laço da relação ainda era capaz de formar um nó, um nós, porém percebi que amar sem amor é viver no automático, é impossível. Mesmo que o sentimento seja maior que todas as muralhas do mundo, se ele for unilateral não será capaz de suprir o vácuo do amor, pois ainda haverá uma parte que pulsa sem força.

Me descobri olhando pela janela e pensando como seria o futuro ao lado de alguém que me faz chorar, que faz eu me sentir mal pelo simples fato de ser eu, sem máscaras. Entretanto eu não me via mais sem aquele homem, sem as nossas histórias, nossa família. Temia perder tudo e me afogar, desolada, porém não sabia que já estava inundada da cabeça aos pés

Não posso dizer que meus anos de relacionamento foram intrinsecamente ruins, mas o fato de eu me olhar no espelho e não ver mais brilho em meus olhos, ou ver o céu parcialmente ensolarado é como um lembrete de todas as minhas angústias, noites de insônia, frustrações internas. 

Queria apenas ser amada, ser querida, mas ele não permitia, seu ego era grande e ofuscava até o que havia de mais bom. É claro que eu não era perfeita, sei que também contribuí para o desgaste do elo que nos unia, mas minhas falhas nos afetavam como casal, não eram críticas impiedosas como ele fazia. Meus erros eram passíveis de absolvição.

Eu me trucidava lentamente, com todas as palavras hostis que ele me soprava, até o dia em que resolvi levantar da cama mais cedo, arrumei minhas coisas e parti. Não abandonaria meus filhos, lutaria para tê-los perto de mim, mas naquele momento eu precisava tomar aquela decisão, ou muito possivelmente não tomaria mais. 

Aprendi que posso estar só e me sentir completa, posso em minha solidão festejar a primavera com todas as flores despedaçadas pelo chão. Em nossos caminhos desvirtuantes devemos buscar inspiração em nossos sonhos, no que nos motiva a seguir em frente mesmo com todas as nossas crises existenciais, falhas e imperfeições.

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