Além de uma série: a distopia e a realidade em The handmaid's tale - Do papel para o mundo

4 de dezembro de 2017

Além de uma série: a distopia e a realidade em The handmaid's tale


Por favor, me diga que você já ouviu falar dessa série! Não? Tudo bem, então senta aí que eu vou te contar. 

The handmaid's tale é um romance distópico escrito em 1985 pela canadense Margaret Atwood. Após os Estados Unidos serem dominado por um regime teocrático, totalitário e fundamentalista cristão, as mulheres perdem seus direitos. E quando digo isso falo muito sério. De um dia para o outro elas não têm mais direito à propriedade, por exemplo, e todas as suas rendas ficam em tutela de homens, como seus maridos.

Elas passam então a ser divididas em castas e devem se vestir de acordo com os seus papéis desempenhados. A subdivisão é feita da seguinte forma: As Esposas se vestem de azul, e são as mulheres dos comandantes. Sim, deles. Qualquer pronome possessivo aqui utilizado é apenas uma sutil representação da realidade de opressão criada. As Filhas se vestem de branco. As Tias são responsáveis pela educação das Aias, além de vigiá-las, e se vestem de marrom. Já as Aias são as mulheres férteis, destinadas à procriação. Elas usam roupas vermelhas e andam sempre muito cobertas. As Marthas são infertéis, e por isso ficam com os serviços domésticos (bem no estilo se você não vai pra cama que vá pra cozinha). 

Cada elemento da série parece ser calculado com o propósito de chocar o expectador, e fazê-lo pensar. Porém, não se engane, há mais realidade presente do que você pode imaginar. Assim como ocorreu em "Black Mirror", os detalhes, muitas vezes com feições exageradas, são componentes importantes para traçar paralelos com o real. 

Elementos de destaque na série
Autoridade sobre o corpo da mulher
Mulheres são criadas para servir. Na cozinha, na cama, são ensinadas a serem dominadas por homens. Se quando crianças ouvem para fechar as pernas, quando crescem as pernas precisam estar abertas à disposição do homem. O prazer não é a pauta, mas sim a dominação. Logo no primeiro episódio da série vemos Offred ser estrupada por seu comandante. A cena acontece aos olhos da Esposa, que pelo desejo quase insano de ter um filho, legitimado pela sociedade patriarcal, que fetichiza a maternidade, nada pode fazer a não ser observar seu marido penetrar outra mulher na sua frente. 

Falta de sororidade
Quantas vezes você já não ouviu uma mulher chamar outra de vadia, piranha ou fácil?! Esses adjetivos são usados de forma pejorativa para nada além do que colocar mulheres umas contra às outras, isto é, implicando na falta de sororidade. Na cena da foto, Serena Joy, a Esposa, humilha e agride Offred. Em outra cena dramática, as Aias são incentivadas a pronunciar palavras no intuito de culpabilizar uma vítima de estupro. Apesar de lamentável, essa não é nenhuma invenção da série, tendo em vista que mulheres são punidas pelo simples fato de serem mulheres.

Desigualdade de gênero
Quando as mulheres perdem seus direitos e os homens passam a "tomar conta" de suas despesas, o caos se instaura e a submissão fica visível. Uma das minhas cenas preferidas ocorre quando a protagonista, Offred, descobre que seu dinheiro foi congelado. Seu esposo diz à ela para não se preocupar pois ele cuidará dela, e Moira, amiga de Offred diz: "Ela não é sua propriedade e não precisa que cuide dela. É daí que tudo isso veio. Vocês querem cuidar de nós por sermos fracas, não é? Porque somos inferiores". Sim, é exatamente essa a ideia construída majoritariamente por homens, de que mulheres são frágeis, bonequinhas de luxo, que necessitam de cuidado. A própria reação de desentendimento do esposo de Offred demonstra essa naturalização da soberania masculina. 

Punição pela homossexualidade
Em muitos países, como no Sudão e Irã, há pena de morte aplicada para quem pratica atos sexuais com pessoas do mesmo sexo. Na República de Gilead, onde a série se passa, a forca é uma das formas de punição para as "traidoras de gênero", como são denominadas as lésbicas. Além disso, a palavra "gay" não pode ser pronunciada, pois é tratada como um pecado. É como se tudo o que fugisse do padrão heteronormativo fosse um erro, sujo, passível de punição.

Repressão nas manifestações
Este item não é muito difícil de ser percebido nos grandes centros urbanos, sobretudo por quem é ativo em atos políticos. A repressão policial é uma resposta direta à indignação do povo, que insatisfeito com o sistema vai às ruas protestar. O problema é que isso não é visto com bons olhos pelos governantes, que tratam os manifestantes como meros baderneiros, e nada além disso. 

Negação do direito ao estudo às mulheres
Na sociedade de The handmaid's tale as mulheres não podem estudar. A leitura de um livro só é permitida aos homens. Nada que não possa ser encontrado ao longo da história. Um exemplo de notoriedade é o caso da Malala Yousafzi, a afegã vencedora do Nobel da paz, que levou um tiro após talibãs descobrirem que ela tinha um blog secreto onde falava sobre o regime extremista e a proibição das meninas de irem à escola. 

Punição e incitação a atos violentos
Que os regimes extremistas ganharam força no mundo nós já sabemos, como temos de exemplo a posse de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. Na sociedade distópica da série, as mais severas punições são legitimadas, como a pena de morte para casos de estupro. Em um dos episódios, quando é dada a sentença a um homem perante a um desses casos, as Aias são incentivadas a praticarem um linchamento como bem quiserem. O objetivo é incitar o ódio e a violência, despertando os instintos mais cruéis.

Imposição da religião
Apesar de vivermos, teoricamente, em tese, supostamente, em um Estado laico, não é muito bem assim na realidade. A religião ainda predomina e interfere em muitas questões na sociedade, como no debate sobre a legalização do aborto. Na série, os princípios religiosos estão expostos nas mais diversas ações. Seja pra justificar uma ação violenta, ou iniciar uma relação sexual, o discurso moralista se faz presente.

Onde assistir a série:
The handmaid's tale é uma série de televisão estadunidense distribuída pelo serviço de streaming Hulu. Ou seja, infelizmente não é possível assistir pelo Netflix. Porém, calma que pra tudo tem um jeito: ela está disponível em diversos sites onlines, gratuitamente, de modo que não tem desculpa pra não ver, certo? Certo. Então corre pra maratonar porque a segunda temporada já foi confirmada. Depois me conta o que achou!

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