Pequenos detalhes e a poesia perdida - Do papel para o mundo

1 de dezembro de 2017

Pequenos detalhes e a poesia perdida

Hoje foi um daqueles dias cansativos, do tipo que quando ainda nem está na metade já se quer o fim. Bate uma saudade inesperada da cama, que está lá, no mesmo lugar todos os dias, mas hoje ela parece especial. Você já se sentiu deslocado? Bem, é o que acontece quando se vai a determinado lugar pela primeira vez, no qual a simples atmosfera não te agrada, e você nem sabe por que está indo, mas vai. 

Talvez você queira saber onde fui, então sem rodeios, direi: passei o dia num zoológico. Eu tenho 20 anos, e foi a primeira vez que fui. Nunca tive muita afeição por animais. Não que eu não os ache fofinhos, mas prefiro ver a fauna na calçada do meu vizinho, ou então nos filmes do que passar minutos consideráveis em uma fila enorme de um dia ensolarado para ver bichinhos. Ah, é importante citar: após encarar um engarrafamento que facilmente daria pra comparar a uma corrida de tartarugas. 

Preciso dizer que não embarquei nessa aventura sozinha. Fui acompanhada da família, que é pra definir bem o retrato de fim de semana clichê. Andamos em volta da natureza, tiramos fotos, lanchamos juntos e se assustamos juntos com a tabela de preços da praça de alimentação. Onde já se viu, uma paçoca a 2 reais! Ainda bem que existe um negócio chamado cartão, que inibe, temporariamente, a dor do assalto consentido. 

Mas prossigamos, não foi de todo ruim. Na mesma mesa em que me sentei para comer conheci pequenas pessoas muito interessantes, que me despertaram o primeiro sorriso sincero do dia. Eram crianças e estavam acompanhadas da tia, muito simpática, enquanto a mãe das gêmeas Bárbara (cujo nome é o mesmo que o meu e me chamou atenção) e Laura comprava água para suportar o dia quente. Também não posso esquecer do menino Pedro, dono de olhos azuis muito bonitos, que era primo das meninas e se empenhava em devorar seu pacote de biscoito de polvilho. O trio não devia passar dos cinco anos de idade e conversavam de forma tão harmoniosa que não aguentei disfarçar meu interesse em ouvir e admirar aqueles olhinhos tão sinceros. 

Posso dizer que aquele foi um dos poucos momentos agradáveis do meu dia. Do dia de alguém que não estava nem um pouco sedento por apreciar animais, que não queria nem ter saído de casa, que só queria um livro e acesso à internet. Foram minutos em que meus olhos e ouvidos fizeram além da função de ver e ouvir somente o que se dizia respeito a mim e ao meu espaço, para me atentar a pessoas que jamais cruzei na rua. Num mundo em que somos todos atores, é bom se pegar desprevenido, sorrindo espontaneamente com histórias que não são nossas, mas que cabem na gente.

No fim, sou capaz de dizer que fiz uma limonada com as rodelas desse dia, cheio de momentos em que tudo que eu queria era me transportar pra outro lugar. Porém, também foi um dia para se refletir e avistar a poesia dos detalhes, quase sempre perdida na rotina, mas que merece um pouco mais do nosso tempo. Que tal olhar em volta e ver o que te cerca? Não dentro do seu metro quadrado, mas além de um ideal construído que transforma todos nós em robôs, quando somos muito mais do que isso. É possível enxergar singularidade e beleza até mesmo em faces desconhecidas.

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