O feminismo de Jessi em Big Mouth - Do papel para o mundo

3 de setembro de 2018

O feminismo de Jessi em Big Mouth

Oi, oi, tudo bem? Por aqui tudo ótimo, então vamos ao que interessa! Você já ouviu falar na série de animação Big Mouth? Se sim, já deve estar por dentro da história e conflitos dos personagens. Se não, um breve resumo: Big Mouth, criada por Nick Kroll, Andrew Goldberg, Mark Levin e Jennifer Flackett estreou no ano passado, na Netflix. Ela aborda todo o universo que envolve uma fase não tão querida da vida - a puberdade. O melhor é que a produção toca em diversos assuntos como primeira menstruação, assédio e orientação sexual de forma muito natural. A segunda temporada foi confirmada e já tem data de estreia!

Trailer da primeira temporada

Resumo feito, eu quero falar da personagem que ao meu ver é a mais interessante e bem construída da série - Jessi. Filha única de Greg e Shannon, tem de lidar com os primeiros sinais da adolescência, como alterações hormonais e dilemas de personalidade. Agora esqueça todas as construções de personagens  femininas romantizadas que você já não aguenta mais ver por aí, pois definitivamente esse não é o caso.

Já adianto que não, Jessi não é a Mulher-Maravilha ou a heroína que salva os amigos e o mundo. Ela é uma menina comum da idade, que ri com piadas e chora com o mal gosto da mãe ao comprar um vestido. De maneira complexa, ela se mostra uma feminista, que faz questão de questionar seu papel como "mulher" na sociedade. Mesmo nova ela sabe que há uma diferença opressora de gênero, e é impossível fechar os olhos para isso. 

"Se os homens menstruassem seria esporte olímpico. O de maior fluxo ganharia medalha" -Jessi
A frase acima pode à primeira vista parecer apenas uma frase engraçada, mas tendo em vista o tabu em torno da menstruação, tratada ao longo da história do cinema como "anormal" ou "coisa do demônio" em obras clássicas como Carrie - A estranha, vemos o quão significativa é a observação da menina. Ao contar para a mãe sobre a sua menarca ela recebe apoio, explicações e é abraçada.

Autoestima em cheque
Como dito anteriormente, Jessi não é nenhuma heroína que salva o mundo, até porque seu gênero faz com que ela mesma tenha que se salvar. Em uma cena sua mãe pergunta: "Jessi, por que demora?", e a menina responde: "Tô me sentindo horrível, eu não tô bem". Ciente das pregas do consumismo, Shannon diz: "Ah, é assim que a indústria da moda quer que você se sinta". A vontade de aplaudir cada frase girl power é grande! 

Nós mulheres crescemos autocrítica de nossos corpos, mas esse olhar não vem de nós, vem da mídia, do machismo, das grifes de moda. Por isso é tão importante que hajam pessoas como a mãe de Jessi para instruir de modo sincero sobre o porquê do mal estar com a aparência. Se a essa altura a sua cabeça pensa: "ah, mas então a Jessi não é feminista, porque ela não gosta do próprio corpo", eu só te digo uma coisa: para. Deixa esse pensamento simplista pra trás e se faz a seguinte pergunta: existe alguma mulher 100% satisfeita ou que nunca se olhou meio torto? Não, né? Eu mesma que escrevo este post sei de toda a opressão que sofro apenas por ser mulher, mas ainda assim às vezes eu fico mal ao olhar minhas celulites e sinto raiva ao ver meu cabelo frisado. Isso não tira o meu feminismo. 

"Eu não sou mulher dele" -Jessi
Quantas vezes teremos que explicar aos homens que não somos propriedade deles? A pequena Jessi não deveria precisar (nenhuma mulher deveria), mas teve que gritar ao dizer que não é mulher do amigo de um amigo.

Corpo feminino
Okay, hoje em dia falamos mais sobre a anatomia do corpo feminino, porém, o prazer ainda nos é negado. Falar em público ainda soa como ousadia, como algo subversivo. Jessi passa por um momento de transição em que a infância vai ficando para trás e aos poucos caminha para a vida adulta. Nesse processo, ela "descobre" e conversa com a sua genitália. A cena é bem didática e vale a pena conferir.

Meninas não precisam ser delicadas
Apesar de tentarem nos enfiar goela abaixo um manual da feminilidade, nós não precisamos disso. Jessi não é uma mocinha delicada, que senta com as pernas cruzadas e está sempre a sorrir. Muito pelo contrário. Ela até xinga, sabia? E está tudo bem.

Vocabulário feminista
Dona de uma inteligência sem fim, Jessi conhece palavras fundamentais do vocabulário feminista, como patriarcado. Em uma cena muito boa ela questiona sua mãe sobre alguns conceitos e indaga: "Meu Deus, você está fazendo slut-shammig comigo?!".

Tesão não é exclusividade de homens
Sabe aquela música da Cindy Lauper chamada "Girls just wanna have fun"? Então, talvez ela tenha um bom fundo de verdade. Garotas também querem se divertir e sentir prazer. Já não bastasse a dificuldade para que isso ocorra de forma natural, Jessi tem que explicar para um garoto com quem ficou algumas vezes que o fato dela ter comprado um sutiã não significa que ela quer algo sexual com ele. Pois bem, o machismo e o egocentrismo andam lado a lado. Em outro momento, por exemplo, ela deixa claro (para o público, ao menos) que não quer gestos românticos ou nada sério com esse garoto, mas ora bolas, parece que ele não entende muito bem.

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