“Miss Violence”- Uma história sobre a dor de ser mulher - Do papel para o mundo

8 de março de 2019

“Miss Violence”- Uma história sobre a dor de ser mulher


“Miss Violence”- Uma história sobre a dor de ser mulher
De origem grega, “Miss violence” é um filme atravessado por questões culturais e de gênero. Ele se inicia com a cena do aniversário de uma menina de 11 anos, que resolve se afastar da comemoração para ir até a janela. Com seus familiares ao fundo dançando, no que parece ser o retrato de uma família feliz, ela se joga do alto do terceiro andar. Nesse momento nos perguntamos o que teria levado ao suicídio de alguém tão nova.

A cena impactante é apenas uma amostra do que podemos esperar do drama, cuja violência figura como personagem central. Porém, se engana quem pensa (assim como eu pensava) que o filme traz cenas explícitas de crueldade. Não, em momento algum vemos uma grande briga em que algum personagem saia vermelho ou vemos alguma situação que envolva xingamentos. O pai deixa a sua filha ir à casa de sua amiga e assim como seus irmãos, ela vai à escola. O pai é bem presente e está sempre disponível a qualquer chamada da escola. Entretanto, esse mesmo pai age como se a sua esposa fosse uma planta sem sentimentos, que passa boa parte do dia no quarto. E bate na cara da filha mais velha. E é arbitrário com a sua filha mais nova. E é mão de ferro com o seu filho – o único do sexo masculino. Novamente, vale frisar, as cenas não são no nível mais pesado como vemos em muitas produções, mas é o suficiente para julgarmos as atitudes daquele homem.
“Miss Violence”- Uma história sobre a dor de ser mulher
Conforme o filme avança os atos ficam mais claros, mais evidentes, e a violência aumenta. Não fica muito difícil entender que a estrutura patriarcal que tanto domina a vida das mulheres do mundo todo, também mostraria a sua face ali, naquela família à primeira vista tão perfeita. Então um segredo ditador de mistério na trama nos traz uma interrogação: a mulher, que aparenta ser a esposa está grávida, e quem é o pai ausente daquela história? Uma luz se acende e entendemos que o pai da mulher retraída e submissa é o único homem ao seu redor. Portanto, o próprio pai a engravidou. Configura-se assim um episódio de incesto.

Com um mistério revelado, falta-nos perguntar: por que a pequena Angeliki se matou? Eis mais um ponto a ser dado conforme os minutos se passam na trama. Tudo leva a entender que a menina soube por sua irmã mais velha o que houve com ela ao chegar em certa idade. A verdade é dura de lidar, e foi a dor envolta dessa verdade que de fato tirou a vida de Angeliki. As outras mulheres da família permanecem vivas, porém, parte da vida dessas mulheres é tirada diariamente. A esposa, que inicialmente achamos ser a avó das crianças se rendeu ao silêncio, e indica à filha que faça o mesmo para que não sofra represálias. Essa filha, Eleni, não pode nem chorar em outro lugar que não seja o banheiro, escondida. Já as meninas da casa, uma criança e uma adolescente, nem elas são poupadas do peso de carregar o sexo feminino numa sociedade dominada por homens.
“Miss Violence”- Uma história sobre a dor de ser mulher
 A criança, por volta dos 8 anos, tem sua primeira relação com um homem mais velho, isto é, em troca de dinheiro ela é abusada sexualmente. A carga de dramaticidade na cena se deve ao fato da menininha nem entender por que está sendo conduzida para o quarto de um cara que tem idade para ser o seu pai. Já a jovem Myrto, é conduzida à prostituição forçada. Ou seja, ela é estuprada por homens que a tratam como não mais que um pedaço de carne. As cenas são fortes e quando achamos que acabou, o patriarca vem e a penetra, sem dó nem piedade. Na cena seguinte ainda vemos um dos estupradores de Myrto dizer: “Da próxima vez traga uma um pouco mais sorridente”. A frase é absurda e revoltante, mas representa o pensamento de muitos homens, que acham que mulheres existem estritamente para satisfazerem seus desejos, queira ou não. E em caso de violência, é miss quem fica de boca calada. 

Para assistir o trailer, clique aqui.

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