Um desabafo sobre ser mulher - Do papel para o mundo

1 de abril de 2019

Um desabafo sobre ser mulher

Ser mulher
Desde já: este é um texto de desabafo. Por tudo o que deixamos de dizer, e desaba sobre nós. E esse nós se trata de mulheres, estas que são caladas, espancadas, humilhadas, descartadas. Que são vistas como objetos, pertences, apetrechos penetráveis. Nada mais. Nós, que servimos pra fazer a cama e se doar na cama, mas nunca recebemos muito em troca. Às vezes simplesmente não recebemos nada.

Desabafo pelos cortes que sentimos todos os dias, na alma e nos corpos das Marias do Brasil. Desabafo pelas vozes silenciadas, embargadas, que não podem gritar. Desabafo por mim mesma e por todas nós. Nem sempre é fácil extravasar ao mundo o que sentimos, pois basta discordamos de algo que um homem diz para sermos tachadas de loucas, escandalosas, de mi-mi-mi.

Não é fácil engolir sapos a vida inteira e um dia resolver se impor, se expor. Crescemos em um grande ensaio, em que somos ensinadas a ser bela, recatada e do lar. E não se engane, não é tarefa fácil. Ser bela exige esforço, exige sacrifício, afinal, não é qualquer tipo de beleza que eles querem, é a perfeição, que jamais iremos alcançar. Mas à luz da utopia caminhamos, diariamente, com nossos cremes e corretivos. Fechamos as pernas ao usar saia, que nunca deve ser muito curta, afinal, o que vão pensar de nós? Recatadas são mocinhas comportadas. E do lar? Como faz pra ser do lar? Basta habitar? Mas claro que não, a mulher do lar que eles querem faz dos aposentos seu manto sagrado. É devota à cozinha e serva na cama.

E nesse grande ensaio, competimos umas com as outras. Mas como haveria de ser diferente se temos um acordo secreto em comum? Conquistar homem, claro! Então nada mais natural do que lutarmos umas contra as outras. Nada mais comum do que duelarmos pelo título de mais bela, mais inteligente ou melhor esposa. E enquanto isso eles ensaiam truques para nos colocarmos para baixo e nos fazer acreditar que somos insuficientes. Mas tudo bem, não se preocupe, nós nem percebemos mesmo. As armas que nos oprimem são tão sutis que somente quando a camada mais interna da pele sangra é que avistamos nossos cortes.

Se por um lado passar a enxergar a opressão é libertador à medida que nos entendemos como seres não mais passivos, por outro, é dolorosamente incômodo lidar dia após dia, olho a olho com as mais diversas balas que nos atingem. Quando aprendemos a desabafar ainda sangramos, às vezes por nós, às vezes por outras mulheres, muitas que nem conhecemos. A diferença é que quando entendemos o motivo dos nossos rasgos, internos e externos, criamos mecanismos de luta, e passamos a caminhar juntas, de mãos dadas. Não mais como inimigas, e sim como irmãs, que praticam a empatia por um bem comum.

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