A menina com olhos de cansaço - Do papel para o mundo

20 de maio de 2019

A menina com olhos de cansaço

A menina com olhos de cansaço
O mês caminha para o fim e junto o cansaço bate à porta. Lá se vai aquela vontade de fazer planos ou mesmo concretizar os que foram feitos, lá se vai os olhos brilhantes da menina que saía para dançar e se animava com a ideia de cantar ao karaokê. Algumas coisas ocuparam o seu lugar, mas elas têm um gosto diferente, têm o toque amargo da vida no automático. Os dias se perderam e a minha ânsia de desbravar cada segundo já não mora mais aqui.

Fui entrelaçada por outros cheiros e outras cores. O cheiro não é mais o do bolo de chocolate, agora é o da cebola cortada às pressas para o almoço. A cor não é mais a do céu, azulado com tons de branco das nuvens. Essas são vivas demais para a minha cinza realidade de tons opacos

E os caminhos? Já não os sinto, apenas percorro. Entro e saio de ruas que não percebo, como se elas não tivessem nada a me acrescentar, nem um único detalhe na janela de uma casa. Meus passos apressados não me permitem pausas além daquelas calculadas para a ida ao mercado ou à farmácia. Esta, claro, extremamente necessária na lista dos drogados contemporâneos, que precisam daquele Dorflex para encarar o dia, a semana, o mês.

Ah, se não existisse relógio, eu penso: como seria a nossa rotina? Não, nem tempo eu tenho para essas reflexões filosóficas que não vão me levar a nada. É claro que se não existisse relógio o ser humano faria seus próprios modos de lidar com as horas, afinal, essa era já existiu, ou o cansaço não te permite lembrar do tempo das cavernas? 

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