"Democracia em vertigem" e as costuras da nossa história política - Do papel para o mundo

24 de junho de 2019

"Democracia em vertigem" e as costuras da nossa história política

No último dia 19 estrou na Netflix o tão aguardado documentário "Democracia em vertigem", da cineasta mineira Petra Costa. Ela, que hoje tem 35 anos narra a história em primeira pessoa e se coloca como personagem central para pensar um Brasil turbulento, frágil e polarizado. Um Brasil, sobretudo, atravessado pela história, que em sua narrativa começa antes mesmo da ascensão dos ex-líderes petistas Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff

Com pouco mais de duas horas de duração somos conduzidos por uma trama repleta de entrevistas, imagens do país em seu período ditatorial, em seu período democrático e o que restou dele. O texto é literário e bastante imagético. Em determinado momento me senti novamente em Brasília, mais precisamente em novembro de 2016 na manifestação contra a PEC do Teto de Gastos, aquela que congela os gastos com saúde e educação por vinte anos. De certa forma, me senti vulnerável.


No documentário, Petra nos lembra partes esquecidas da nossa história, hoje remontadas e facilmente compartilhadas pelo Whatsapp. Mostra que a luta pelos direitos dos trabalhadores começa com a greve dos operários, em 1979, liderada por Lula aos 33 anos. Ele surge então como uma forte liderança e após tentativas falhas de se tornar presidente do Brasil, alcança em 2002 o poder. Tudo é contado cronologicamente, mas a vertigem existente no nome do filme vai surgindo aos poucos conforme nossas memórias nos permitem. "Hoje, enquanto sinto o chão se abrir embaixo dos meus pés temo que a nossa democracia tenha sido apenas um sonho efêmero”, diz a diretora, que nos faz refletir sobre os caminhos trilhados por um povo capaz de vangloriar a morte de seus antepassados, como a exemplo dos que apoiam a volta da ditadura. 

É como se estivéssemos assistindo um resumo bem costurado de décadas de nossa política, os altos e baixos presentes em toda nação. A união do PT com o PMDB, recordado como o partido mais poderoso da oligarquia brasileira teria sido a primeira demonstração de uma futura crise de identidade do partido de Lula? Talvez sim, ao passo de que 20 milhões de pessoas se desvencilhavam da linha da pobreza e o número de negros nas universidades triplicava. Contrastes que contribuem para a nossa vertigem
Democracia em vertigem
Cartaz de divulgação do documentário "Democracia em vertigem"
Obviamente, a história de Dilma, ex-guerrilheira torturada na ditadura militar, também seria contada, desde a sua posse como primeira mulher presidente do Brasil ao auge da então polarização de ideias em junho de 2013. Dois anos e alguns meses depois um golpe forjado de impeachment travaria mais questões em nossa sociedade, e com isso a extrema direita ganhava cada vez mais destaque. Quem não lembra da "#TchauQuerida"? Uma emblemática face da misoginia exposta em nosso corpo social. E quando achávamos ter atingido o ápice de tantos embaraços, eis que Lula vira alvo da Operação Lava Jato por Sergio Moro, memorado na produção da Netflix como investigador e juiz do caso. Ambos.

O desfecho disso tudo nós já sabemos. Lula preso e Bolsonaro eleito presidente do país. Seus eleitores comemorando a vitória fazendo símbolos de armas, isso quando não portando armas, de fato. Estranho seria se a angústia não tivesse surgido em mim ao assistir o documentário, e ela surgiu, várias vezes, mas sobretudo no final. Deixo então a frase da cineasta de "Democracia em vertigem" para uma coletiva reflexão: “De onde tirar forças pra caminhar entre as ruínas e começar de novo?".

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