Arturo Román de La casa de papel e a culpabilização da vítima de estupro - Do papel para o mundo

27 de abril de 2020

Arturo Román de La casa de papel e a culpabilização da vítima de estupro

Culpabilização da vítima de estupro
*Pode conter gatilhos

Oie! Senta aí que o assunto é sério. Precisamos falar sobre Arturo Román de La casa de papel e a culpabilização da vítima de estupro. Quem acompanha a série já deve ter notado que o personagem tem atitudes muito suspeitas com as mulheres e, em palavras mais precisas: Arturo é um estuprador. Além de já ter assediado Mônica (ou Estocolmo), drogou e praticou atos sexuais com a personagem Amanda, uma das reféns do assalto na Casa da Moeda, com remédios que, segundo ele, eram para aliviar a ansiedade. O famoso "Boa noite, Cinderela". 

Na quarta temporada, onde o abuso ocorre, vemos indícios gradativos de que algo de muito grave aconteceria com a doce e gentil Amanda. De certo modo, foi para nós, telespectadores, como saber de uma possível situação e não fazer nada e, nesse aspecto a série foi muito inteligente em gerar uma sensação de agonia, que vive nas mais de 180 mulheres que têm seus corpos violados a cada dia no Brasil
Dados dos estupros no Brasil
Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública
A representação do estuprador através da figura de Arturo Román é das mais clássicas e compatíveis com os dados da realidade. Um homem amigável, que jamais cometeria qualquer ato de violência! Como ele mesmo diz em cena, sempre foi "defensor dos direitos das mulheres". Isto é, o típico cara que passa batido por nossos olhos quando pensamos em um potencial abusador. Imagem errônea que dificulta investigações criminais e reforça o medo das vítimas fazerem denúncias, afinal, é muito mais difícil acreditar que um homem "dentro dos padrões aceitos" pode ser um estuprador do que uma pessoa de "caráter duvidoso", que já tenha cometido outros crimes (e que teve os mesmos reconhecidos), não é mesmo?



                                                                         Vídeo do Instituto Patrícia Galvão

Por essa construção social de que existe um "perfil de estuprador", Arturo se sente seguro ao tentar mostrar a todos e à própria Amanda que ela deveria estar confundindo as coisas, que deveria ser a ansiedade e que aquela acusação era muito grave. Claro, nunca é a vida da vítima que é enxergada num papel de exposição, mas sim a vida do homem que tem sua "imagem corrompida". Enquanto isso, a palavra da mulher é alocada ao papel de louca, o que foi difundido historicamente em nossa sociedade. Nesta, nossos corpos e vaginas são vistos como patrimônio público, de acesso gratuito aos que por vontade quiserem nos adentrar. Nossas vozes ainda são embargadas de dor e sufoco pelos que tentam nos calar.

A culpabilização da vítima de estupro é tão real que só não vê quem não quer. Um exemplo brutal que ilustra isso é o caso da influenciadora digital Mariana Ferrer, que foi dopada e abusada sexualmente no dia 15 de dezembro de 2018, no Café de La Musique, em Florianópolis. O caso até hoje aguarda justiça, mesmo com provas do material genético (leia-se sêmen) do empresário André de Camargo Aranha na calcinha da jovem. Descrente com a justiça, Mariana resolveu relatar a violência sofrida em seu perfil do Instagram, no dia 20 de maio do ano passado. Com muita coragem, ela rompeu a barreira do silenciamento. 
Amanda de La casa de papel e Mariana Ferrer
Contudo, o que precisamos urgentemente é mudar a lógica que naturaliza a figura do homem enquanto um ser dominador, pois enquanto houver relações desiguais entre o feminino e o masculino, casos como os de Mariana Ferrer e da Amanda de La casa de papel serão narrativas cruéis e de não ficção. 

Agora eu quero muito que você me conte como você está ao fim dessa leitura, pois sei que esse não foi um post leve e, se você chegou até aqui no fim, eu quero realmente saber <3

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