'Nada ortodoxa' - uma história sobre dor, sonhos e coragem - Do papel para o mundo

25 de maio de 2020

'Nada ortodoxa' - uma história sobre dor, sonhos e coragem

Nada ortodoxa
*Sim, contém deliciosos spoilers

O título desse post resume bem sobre o que é essa minissérie maravilhosa (sério!) chamada "Nada ortodoxa", baseada na autobiografia da escritora Deborah Feldman. Apesar disso, o título é ainda um pequeno recorte sobre as múltiplas camadas de reflexões e sentimentos transmitidos por essa obra. Aqui, iremos analisá-la pela perspectiva da dor, dos sonhos e da coragem, essencialmente presentes na trama de apenas quatro episódios.

A protagonista é a talentosa Shira Haas, israelense de 25 anos, que dá vida a uma jovem em busca de liberdade. Criada em uma comunidade judaica ortodoxa (rigorosa nos costumes e rituais), no bairro de Williamsburg, em Nova York, Esty, ou Esther, é instruída a um casamento arranjado, sendo este o seu natural destino. Em sua cultura, ser mulher é ser regida por imposições e não ter livre arbítrio. É não ter autonomia sobre o seu corpo e muito menos o direito ao prazer. É sobre o dever de ser passiva, sem sequer poder questionar. 


É interessante (triste soa melhor) observar como esse sistema religioso ao extremo é de caráter patriarcal e cíclico, afinal, não apenas Esty sofre com ele, mas também a sua mãe e a sua avó, que a oprimem com seus ensinamentos, pois foram educadas para  pensarem de tal modo e transmitirem determinadas atitudes. "O casamento marca o início de uma vida nova!", diz a avó da garota, que claramente não estava preparada para essa vida nova. Dá pra ver a agonia nos olhos dela ao pensar em casamento a cada cena. Além disso, é significativo que, quando por curiosidade, a garota pergunta à mãe como é o marido, arrumado por um casamenteiro, a resposta é um enfadonho "normal, como todos os outros". Isso cai profundamente na máxima de que "homem é tudo igual", como se nós, mulheres, precisássemos ser as diferentes (e perfeitas) e simplesmente aceitar os nossos parceiros ou possíveis parceiros como são. Nos agrade ou não! 

'Nada ortodoxa', poderia, então, ser uma história intrinsecamente sobre dor, mas vai muito além disso ao nos fazer viajar pela jornada de autoconhecimento da personagem principal. Extremamente sonhadora, ela tem uma linda beleza no olhar e crença nas pessoas. Apaixonada por música, é capaz de se emocionar ao ver uma orquestra sinfônica, além de ir atrás para fazer com que a música, de fato, esteja presente na sua vida. Aqui acho importante dizer que Esty não teve acesso aos estudos, pois esse é um tipo de conhecimento pertencente aos homens, o que inclui até a leitura da bíblia, sagrada, mas de acesso restrito aos homens, que repassam (muitas vezes de modo desconexo) os valores para as mulheres da sua família. Por isso, quando Esty foge para Berlim e se inclui em aulas de música, em uma turma com alunos que já tocam instrumentos há anos, ela subverte as normas de sua criação e desafia a si mesma a estar em constante superação. Não sei você, mas me inspira ver tantas pedras no caminho dessa jovem mulher serem derrubadas por ela mesma, me fazendo pensar: quantas vezes não desistimos de algo por coisas tão pequenas? Essa é uma reflexão que acho super válida e que é honradíssima pela trama!
Nada ortodoxa

Enquanto mulheres, somos ensinadas a vida toda como devemos nos portar em sociedade. Em comunidades religiosas como na qual vive Esty, as imposições de gênero ficam ainda mais acentuadas. Sua mãe lhe ensina que quem fala primeiro é o marido, por exemplo. Enquanto figura feminina, a posição mais cabível tem seu fim na subalternidade. No quesito sexualidade, então, a opressão ganha linhas violentas. Ao se preparar para iniciar sua vida sexual, a personagem aprende que "o homem é o doador e a mulher é a receptora". Em outras palavras, o homem dá o pênis e a mulher abre as pernas. O papel da mulher nada mais é do que o de um suporte para que o homem descarregue as suas tensões, seja de prazer ou estresse. 
Nada ortodoxa

Assistir as tentativas de uma primeira relação sexual entre Esty e seu esposo, Yankee, chega a ser bem incômodo. Não há preliminares, não há afeto, há apenas um órgão tentando adentrar em outro. Ao saber das dificuldades para transar, a mãe do rapaz judeu coloca a culpa em Esty e, diz que é preciso resolver a situação para que seu filho não fique mal. Foque aqui comigo: "RESOLVER A SITUAÇÃO". "ELE NÃO FICAR MAL". Mas e a mulher? Não tem problema em ficar mal? Bem, acho que já sabemos a resposta. Entretanto, mesmo com todos os obstáculos em busca de liberdade, a guerreira dessa excelente minissérie, que tanto me prendeu, foi atrás de si mesma, de sua própria verdade
Nada ortodoxa

Em uma das melhores cenas, a garota entra no lago que conheceu através dos seus novos amigos de Berlim e, apenas tira as meias e o casaco, mas pra ela isso representa por si só tanta liberdade. A câmera nos direciona a esse ato aparentemente simples, sobretudo para nós que temos a possibilidade de ir à praia. Porém, a cada passo da personagem em direção ao lago, onde ela fixa os olhos no horizonte, sentimos, em diferentes níveis a sua energia, até que ela resolve tirar a peruca (usada por mulheres de alguns grupos judaicos após rasparem o cabelo antes do casamento) e deixar seus curtos cabelos à mostra, representando a palavra que a define: coragem

E você, já assistiu 'Nada ortodoxa'? O que achou? Quero muito saber a sua opinião, então não deixe de comentar, okay? <3

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