A representação das estruturas de poder em ʽCoisa mais lindaʼ - Do papel para o mundo

29 de junho de 2020

A representação das estruturas de poder em ʽCoisa mais lindaʼ

Coisa mais linda

*Ops, contém spoilers

Oie! Tudo bem, meu bem? O assunto do post de hoje é a linda (e necessária!) série 'Coisa mais linda', da Netflix. Mais especificamente, quero que a gente pense aqui como essa segunda temporada retrata as estruturas de poder de forma extremamente semelhante à realidade e aos nossos dias atuais, mesmo esta sendo uma série de época.

Acho importante entendermos que não é porque um conteúdo é de época que ele não tem coisas em comum com a contemporaneidade. Determinadas crenças e valores atravessam diferentes gerações, se perpetuando para além de seu tempo. Quando pensamos em raça, gênero e classe, por exemplo, estamos pensando em discussões que não se iniciaram hoje, fazem parte de debates antigos, mas que hoje têm mais força do que em outros tempos históricos. 
A representação das estruturas de poder em ʽCoisa mais lindaʼ

Nesse sentido, o que 'Coisa mais linda' faz é trazer para nós, expectadores, um cruzamento de questões antigas que se casam perfeitamente com angústias e lutas da atualidade. No que se refere a poder, é essencial observarmos como ele é constituído a partir da figura do homem e de uma essência individualista, dominante e patriarcal. 

Na cena do julgamento do assassinato de Lígia (Fernanda Vasconcellos), hoje entendido como feminicídio devido ao seu caráter machista, assistimos o desdobramento do crime que encerra a primeira temporada. No tribunal, é válido observar até como as câmeras são capazes de nos introduzir à atmosfera patriarcal de subjugação da mulher, neste caso, Malu (Maria Casadevall), que depõe a favor da amiga. Sentada no meio do júri, completamente masculino, que analisa o caso, ela é questionada pelo juiz em relação a ter envolvimento com outros homens mesmo em papel estando casada. Isto é, a sua conduta sexual é posta em voga em detrimento do seu caráter, o que contribui para certa desqualificação da sua palavra. Se você ainda não assistiu a série, talvez o seu cérebro tenha dado um leve nó, super justo, afinal, pera, né, o julgamento não era sobre o assassinato da Lígia? Então por que a Malu é interrogada em pontos tão íntimos? Eu te respondo: porque ela é mulher e, as estruturas de poder têm como um de seus mecanismos a geração de opressão, que recai mais facilmente perante aos grupos minoritários. Bem, a essa altura do texto e do rolê da vida, talvez você já tenha entendido que ser mulher é ser uma minoria, o que fica ainda mais claro com a concretização do julgamento, que decide que Augusto, (Gustavo Vaz) que atirou em sua esposa, cumpra pena de quatro anos em regime aberto!
Coisa mais linda

Outro ponto que cabe nos atentarmos é que Augusto confessa no julgamento que, sim, atirou em Lígia, mas por acidente, para defender a sua honra e de sua família. Oi, amado?E ainda complementa dizendo que antes a Lígia cometeu um crime ainda maior, que foi abortar, matando o filho deles. Mais uma vez, é feita uma análise moral sobre as práticas da mulher, aqui, a vítima. Desculpa, mas ainda não acabou. Na série, mas também na vida real, a mídia tem um papel  crucial ao veicular casos como o do assassinato da cantora, atuando, assim, como progressista ou transgressora. Como jornalista, feminista, defensora dos direitos humanos, mas sobretudo, humana, não tenho dúvidas de que ela agiu em desserviço, sendo sim, transgressora ao expor o caso como um crime passional. Um dos jornais romantiza a ponto de dizer que "seu único crime foi amá-la demais". 

Lembro aqui ainda que, em vida, Lígia sempre dizia que seu marido a amava demais, mesmo a fazendo sofrer verbal e fisicamente, se tratando assim de uma violência simbólica, conceito criado pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu, para se referir a uma violência que atua em viés psicológico, através da socialização, se naturalizando no cotidiano. O que enxergamos com isso é o quanto as estruturas de poder são historicamente aliadas aos homens, o que impacta em inúmeras formas como nós, mulheres, somos vistas e como nós próprias nos entendemos dentro das opressões vivenciadas. 
Feminicídio Coisa mais linda

Encerro este post com a mensagem de que, assim como Malu e Theresa (Mel Lisboa) decidem gravar um programa de rádio para contar sobre quem foi a Lígia e, assim ter uma forma de mostrar que mesmo em morte sua vida não será calada, nós, eu e você, podemos também ser partes dessa luta contra o feminicídio, que é naturalmente uma luta contra mulheres. Buscar informação, participar do debate, ouvir atentamente e, contar, como for possível pra você, a história de mulheres que assim como Lígia tiveram sua vida interrompida pela misoginia é uma maneira de dizer basta. Basta para a violência que nos ronda. Como bem disse a filósofa Djamila Ribeiro em palestra na Casa TPM, no ano de 2017, "Não existe revolução feita com flores." Ou seja, precisamos nos incomodar e a partir desse incômodo reagir para um caminho progressista de mudança. 
Rádio Coisa mais linda

Agora me conta aqui: o que te incomoda hoje e que você quer mudar?

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