Isolamento social e a falta de contrastes em nossos dias - Do papel para o mundo

15 de junho de 2020

Isolamento social e a falta de contrastes em nossos dias

Isolamento social
Viver os dias tem sido tarefa estranha, de modo que sinto, na verdade, estar encarando os dias. Pela manhã, encaro com paciência e sorriso no rosto, à tarde, trabalho a esperança, mas já próximo ao anoitecer, me agarro às reflexões mais filosóficas. Costumo deitar na cama, abrir a janela e avistar o céu, cinza ou azul, atentamente, como quem traduz olhares. 

Em tempos de isolamento social, preencho os vazios do peito com memórias que me aquecem. Isso quer dizer que penso em amigos e amores que me fizeram sorrir por aí, nos lugares que conheci, mas também no metrô lotado, nos ônibus sem assento e no café meio amargo e necessário para despertar às 4 h da manhã. Pois é, saudade sinto até das agonias diárias. Se o sofrer me apetece? Não. Mas dos contrastes pelo caminho, sinto falta. Na viagem, longa, vale dizer, até o trabalho, inúmeras eram as possibilidades de me alegrar com algo bobo ou mesmo me enfurecer diante de algum ato displicente. 

Já em casa, a vida corre em câmera lenta. Sim, você leu certo. Os meses passam na velocidade de um míssil, fazendo com que três meses tenham a identidade de um único mês. Porém, quando percebidos diariamente, se assemelhem a longas temporadas de inverno. Os contrastes são naturalmente reduzidos, pois não há tantas interferências externas. As maiores encontramos nas notícias que lemos. Estas, sim, responsáveis por gerar em nós gráficos alternados de humor. 

Não sei você, mas eu às vezes acordo pronta pra encarar o mundo, digo a mim mesma que não importa o que aconteça, será um dia incrível. Mas aí as horas passam, faz sol, sombra, e em algum momento os ponteiros do relógio decidem encerrar meu prazo rumo a um dia incrível, restando apenas um silêncio ensurdecedor que ecoa pelas paredes do meu lar. Aliás, a essa altura da quarentena, será lar ou prisão? De certo, ambos. Só me resta filtrar da melhor maneira possível as vozes que me elevam e me golpeiam. 

E você, como tem sentido esses dias em casa? Me conta! 

Nenhum comentário:

Postar um comentário